Sandro Kretus


Poemas do livro

 “ O jardim Sombrio”

 

 

A dama negra de Lord Byron

 

Fria ao leito deitou-se nua e refrigerou-me adormecido

sem meras ver a pálida mão

silenciar-me ao ter sorrido.

 

O gótico

 

Eu sou o poeta da escuridão
que semeia em frios jardins
flores mortas
com as pálidas mãos

Sou o ser escuro
que vigia a noite
com o olhar de vampiro
buscando encontrar a beleza
que se esconde em cada sombra

Meus olhos pintados de preto
vêem o que não pode
ser visto
pelos olhos mortais

Eu sou a bruma noturna


o ouvido dos
Gárgulas
nas catedrais

Eu vagueio nos céus escuros
onde os olhos dos
corvos
brilham
no mágico crepúsculo



Nas trevas
vejo a luz
que poucos ainda
produz
e na terra onde os seres
do dia
rastejam
plano suavemente com
minhas asas de
anjo negro

Minha solidão
devora as horas
esperando o dia terminar
até cair sobre mim
o manto da noite
onde sonho acordado
sem despertar
 
Meus versos escritos
com sangue
deslizam como uma chuva tépida
nos prédios abandonados
onde deixo o lamento de um mundo
doente
gravado


Doenças deixadas pelos seres
do dia
que destroem o mundo
com sua ímpia enfurecida
Quem são os estranhos?
Ou seriam os loucos?

 


Deixe-me só com minha tristeza
pois o que resta é chorar
afinal, alguém precisa chorar
então
que seja eu
o ser da escuridão
o Nosferatu

Deixe-me acender minha fogueira
na terra das almas mortas
quero deitar-me sobre as lapides frias e tortas
deixadas pelos seres
de outrora

Deixe-me cantar
nas entranhas escuras
Close to me
o mundo está doente
talvez não há mais cura
alguém precisa chorar
então que seja eu
o ser da noite escura

  

O verme

 

Ao decompor-se, o corpo já apodrecido

Metamorfoseou-se em um liquido espesso, amarelado

E ao ser sugado, embrenhou-se ao estomago da mosca varejeira

Que lentamente o sugava

 

Após extraordinária transmutação

Produziu-se uma espantosa manifestação

Fazendo a mosca defecar o verme

Em meio a podridão

 

Submergido em um caldo azulado

Estava o verme

Em estado espantado

Tentando livrar-se daquela bolsa fecal

 

Ao colocar a cabeça para fora

Após romper a grossa membrana

O verme esforçou-se, conseguido tirar seu corpo

Lançando-se ao chão com um hibrido mergulho

 

Livre daquela prisão, rastejou suavemente

Deixando um rastro meloso no chão

E aos poucos as luzes foram acendendo

Fazendo o verme recuperar a visão

 

A sua frente, a surpresa

Estava o verme em frente a um jardim de violetas

E sem perder tempo, foi logo tratando de rastejar

Indo ao encontro das lesmas

 

Ao chegar, o verme foi expulso pelos molúsculos gastrópodes

Que lançaram-no um olhar de repulsa

-Vá ao encontro dos seus! Gritou uma das lesmas

-Estão ali! Ali no corpo decomposto

 

O verme emocionou-se ao ver uma nuvem de vermes

Fervilhando em uma carcaça apodrecida

E assim, juntou-se aos seus

Dando continuação a vida, que ali, lentamente se esvaia

 

A valsa das rosas

  

Lembra quando dançávamos a luz do luar, meu amor?

E as rosas giravam, iluminadas, no jardim das petúnias

Ali nossos corpos rodeavam, deslizando ao som dos violinos

Que alçava-nos a urbe da luz, nos iluminado de azul

 

Dançávamos ao som do Danúbio, seguido por outra valsa

E mais uma, assim se fazia, sem pensar na hora, mas que hora?

Se não existia, era só nós dois

Dançando a luz da lua

 

Até nas noites frias, mas que frias?

Se o calor nos aquecia

Em cada dança, ali se fazia

Um passo de magia

 

E nos bailes de máscaras? Lembra?

Sempre um cavalheiro roubava-te dos meus braços

E mesmo distantes, nossos olhos

Estendiam-se na mesma vértice que nos unia

 

Éramos um do outro, meu amor

Que adorável companhia

Tê-la ao meu lado, assim

Todos os dias

 

Agora, uma púgil agonia

Em meu peito se afia

Ao lembrar-me destes momentos

Oh! Que tristeza! Em meu coração se alogia

 

Desde que partiu

Vivo esta tormenta

A dor me castiga, em infinita sentença

Porque meu amor, me deixaste?

 

 

Meu pensamento viaja, tentando encontrar

A substancia que esvaiu do teu corpo, ao  postemar-se

Vejo teu sorriso em cada estrela, mas não consigo alcançar-te

Porque meu amor, me deixaste?

 

As vezes sou capaz de ver-te, dançando no véu da noite

Iluminada, me sorri, sorri, mas não diz nada

E ao alcançar-te em desespero, desapareces

Como nevoeiro,dispersando-se por inteiro

 

Oh! Espirito iluminado

Porque não me levas contigo?

Quero ficar ao teu lado

Dançando eternamente no luar encantado

 

Hoje mais um dia, sonho acordado

E ao olhar as petúnias mortas no jardim

Lembro-me de como éramos felizes

Também hoje, mais uma vez, venho trocar as rosas de teu jazigo

 

E ao sentir tua lápide fria em meus pés

Mais uma lágrima surgi em meu rosto sofrido

Digo-te, meu amor, como sempre digo

Hoje as petúnias estão mortas, mas as rosas girarão, iluminadas pelo teu sorriso.

 

  

A mosca e a mortalha

 

Em puro mármore deitou-se suavemente

colocando suas mão pálidas por entre a mortalha

se fez um radioso brilho exuberante em volta da rosa

luminosa e delicada, que escondida, brilhava mais

que a luz debaixo das rendas bordadas

o silêncio veio ao encontro da mosca

que o tempo todo a rodeava, e naquela intensa e clara luz

flutuava, porem lentamente se apagava

ao apagar-se inteiramente, o radioso brilho ali presente

despediu-se, e a mosca com a visão ofuscada, adentrou

por debaixo das rendas bordadas, pousando na rosa desabrochada

desesperada, tentava encontrar aquela luz, que subitamente se dispersara

convencida de assim te-la perdido, se pôs a chorar

deixando cair uma lágrima quadriculada

e na sinfonia póstuma que ali se anunciava, a pequena mosca

então sorriu, ao ver as chamas das velas enfileiradas

e assim, deitada ao perfume da bela rosa

ambas adormeceram iluminadas.

 

Sandro Kretus

 

Ir para:

   VOLTAR AO ÍNDICE DE POESIAS




OUTROS POEMAS
 

   

 

 Para Rever o Portal