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CRUZ E SOUZA
.Alma
Solitária
.Litania dos Pobres
.O
Assinalado
.Sorriso Interior
Ó alma doce e triste e palpitante !
Que cítaras soluçam solitárias
Pelas regiões longínquas, visionárias
Do teu Sonho secreto e fascinante !
Quantas zonas de luz
purificante,
Quantos silêncios, quantas sombras várias
De esferas imortais, imaginárias,
Falam contigo, ó Alma cativante !
Que chama acende os
teus faróis noturnos
E veste os teus mistérios taciturnos
Dos esplendores do arco de aliança ?
Por que és assim,
melancolicamente,
Como um arcanjo infante, adolescente,
Esquecido nos vales da esperança ?!
Os miseráveis, os
rotos
São as flores dos esgotos.
São espectros
implacáveis
Os rotos, os miseráveis.
São prantos negros de
furnas
Caladas, mudas, soturnas.
São os grandes
visionários
Dos abismos tumultuários.
As sombras das sombras
mortas,
Cegos a tatear nas portas.
Procurando o céu,
aflitos
E varando o céu de gritos.
Faróis à noite
apagados
Por ventos desesperados.
Inúteis, cansados
braços
Pedindo amor aos espaços.
Mãos inquietas,
estendidas
Ao vão deserto das vidas.
Figuras que o Santo
Ofício
Condena a feroz suplício.
Arcas soltas ao
nevoento
Dilúvio do esquecimento.
Perdidas na correnteza
Das culpas da natureza.
Ò pobres ! Soluços
feitos
Dos pecados imperfeitos !
Arrancadas
amarguras
Do fundo das sepulturas.
Imagens dos
deletérios
Imponderáveis mistérios.
Bandeiras rotas, sem
nome,
Das barricadas da fome.
Bandeiras
estraçalhadas
Das sangrentas barricadas.
Fantasmas vãos,
sibilinos
Da caverna dos destinos !
Ò pobres ! O vosso
bando
É tremendo, é formidando !
Ele já marcha
crescendo,
O vosso bando tremendo...
Ele marcha por
colinas,
Por montes e por campinas.
Nos areais e nas
serras
Em hostes como as de guerras.
Cerradas legiões
estranhas
A subir, descer montanhas.
Como avalanches
terríveis
Enchendo plagas incríveis.
Atravessa já os
mares,
Com aspectos singulares.
Perde-se além nas
distâncias
A caravana das ânsias.
Perde-se além na
poeira,
Das esferas na cegueira.
Vai enchendo o
estranho mundo
Com o seu soluçar profundo.
Como torres
formidandas
De torturas miserandas.
E de tal forma no
imenso
Mundo ele se torna denso.
E de tal forma se
arrasta
Por toda a região mais vasta.
E de tal forma um
encanto
Secreto vos veste tanto.
E de tal forma já
cresce
O bando, que em vós parece,
Ó pobres de ocultas
chagas
Lá das longínquas plagas !
Parece que em vós há
sonho
E o vosso bando é risonho.
Que através das rotas
vestes
Trazeis delícias celestes.
Que as vossas bocas,
de um vinho
Prelibam todo o carinho...
Que os vossos olhos
sombrios
Trazem raros amavios.
Que as vossas almas
trevosas
Vêm cheias de odor das rosas.
De torpores, de
indolências
E graças e quintessências.
Que já livres de
martírios
Vêm festonadas de lírios.
Vêm nimbadas de
magia,
De morna melancolia !
Que essas flageladas
almas
Reverdecem como palmas.
Balanceadas no letargo
Dos sopros que vêm do largo...
Radiantes de
ilusionismos,
Segredos, orientalismos.
Que como em águas de
lagos
Bóiam nelas cisnes vagos...
Que essas cabeças
errantes
Trazem louros verdejantes.
E a languidez
fugitiva
De alguma esperança viva.
Que trazeis magos
aspeitos
E o vosso bando é de eleitos.
Que vestes a pompa
ardente
Do velho sonho dolente.
Que por entre os
estertores
Sois uns belos sonhadores.
O
ASSINALADO
Tu és o louco da imortal loucura,
O louco da loucura mais suprema.
A Terra é sempre a tua negra algema,
Prende-te nela a extrema Desventura.
Mas essa mesma algema de amargura,
Mas essa mesma Desventura extrema
Faz que tu'alma suplicando gema
E rebente em estrelas de ternura.
Tu és o Poeta, o grande Assinalado
Que povoas o mundo despovoado,
De belezas etrenas, pouco a pouco…
Na Natureza prodigiosa e rica
Toda a audácia dos nervos justifica
Os teus espasmos imortais de louco!
Nas guerras imortais entra sem susto,
Leva consigo este brasão augusto
Do grande amor, da grande fé tranqüila.
Os abismos carnais da triste argila
Ele os vence sem ânsias e sem custo...
Fica sereno, num sorriso justo,
Enquanto tudo em derredor oscila.
Ondas interiores de grandeza
Dão-lhe esta glória em frente à Natureza,
Esse esplendor, todo esse largo eflúvio.
O ser que é ser transforma tudo em flores...
E para ironizar as próprias dores
Canta por entre as águas do Dilúvio!