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de Azevedo
uma
estalagem da estrada
MACÁRIO
(falando para fora)
Olá,
mulher da venda! Ponham-me na sala uma garrafa de vinho, façam-me a cama e
mandem-me ceia: palavra de honra que estou com fome! Dêem alguma ponta de
charuto ao burro que está suado como um frade bêbado! Sobretudo não esqueçam
o vinho!
UMA
VOZ
Há
aguardente unicamente, mas boa.
MACÁRIO
Aguardente!
Pensas que sou algum jornaleiro?... Andar seis léguas e sentir-se com a goela
seca. Ó mulher maldita! aposto que também não tens água?
A
MULHER
E
pura, senhor! Corre ali embaixo uma fonte que c limpa como o vidro e fria como
uma noite de geada. (Saí) .
MACÁRIO
Eis
ai o resultado das viagens. Um burro frouxo. uma garrafa vazia. (Tira uma
garrafa do bolso). Conhaque! És um belo companheiro de viagem. És silencioso
como um vigário em caminho, mas no silêncio que inspiras, como nas noites de
luar, ergue-se às vezes um canto misterioso que enleva! Conhaque! Não te ama
quem não te entende! não te amam essas bocas feminis acostumadas ao mel
enjoado da vida, que não anseiam prazeres desconhecidos, sensações mais
fortes! E eis-te aí vazia, minha garrafa! vazia como mulher bela que morreu!
Hei de fazer-te uma nênia.
E não ter nem um gole de vinho! Quando não há o amor, há o vinho; quando não
há o vinho, há o fumo; e quando não há amor, nem vinho, nem fumo, há o
spleen. O spleen encarnado na sua forma mais lúgubre naquela velha taverneira
repassada de aguardente que tresanda!
(Entra
a mulher com uma bandeja).
A
MULHER
Eis
aqui a ceia.
MACÁRIO
Ceia!
que diabo de comida verde é essa? Será algum feixe de capim? Leva para o
burro.
A MULHER
São
couves.
MACÁRIO
Leva
para o burro.
A
MULHER
É
fritado em toicinho
MACÁRIO
Leva
para o burro com todos os diabos!
(Atira-lhe
o prato na cabeça. A mulher sai. Macário come).
UMDESCONHECIDO
(entrando)
Boa-noite,
companheiro.
MACÁRIO
(comendo)
Boa-noite
O
DESCONHECIDO
Tendes
um apetite!
MACÁRIO
Entendo-vos.
Quereis comer? sentai-vos. Quereis conversar? esperai um pouco.
O
DESCONHECIDO
Esperarei.
(Senta-se).
MACÁRIO
(comendo)
Parece-me
que não é a primeira vez que vos encontro. Quando a noite caía, ao subir da
garganta da serra
O
DESCONHECIDO
Um
vulto com um ponche vermelho e preto roçou a bota por vossa perna. . .
MACÁRIO
Tal
e qual—por sinal que era fria como o focinho de um cão.
O
DESCONHECIDO
Era
eu.
MACÁRIO
Há
um lugar em que estende-se um vale cheio de grama. À direita corre uma torrente
que corta a estrada pela frente. . Há uma ladeira mal calçada que se perde
pelo mato...
O
DESCONHECIDO
Aí
encontrei-vos outra vez... A propósito, não bebeis ?
MACÁRIO
Pois
não sabeis? Essa maldita mulher só tem aguardente; e eu que sou capaz de amar
a mulher do povo como a filha da aristocracia, não posso beber o vinho do
sertanejo...
O
DESCONHECIDO
(Tira
uma garrafa do bolso e derrama vinho no copo
de
Macário).
Ah!
MACÁRIO
Vinho!
(Bebe). À fé que é vinho de Madeira! À vossa saúde, cavalheiro!
O
DESCONHECIDO
À
vossa. ( Tocam os copos) .
MACÁRIO
Tendes
as mãos tão frias!
O
DESCONHECIDO
É
da chuva. (Sacode o ponche). Vede: estou molhado até os ossos!
MACÁRIO
Agora
acabei: conversemos ..
O
DESCONHECIDO
Vistes-me duas vezes. Eu vos vi ainda outra vez. Era na serra, no alto da serra. A tarde caía, os vapores azulados do horizonte se escureciam. Um vento frio sacudia as folhas da montanha e vós contempláveis a tarde que caía. Além, nesse horizonte, o mar como uma linha azul orlada de escuma e de areia—e no vale, como bando de gaivotas brancas sentadas num paul, a cidade que algumas horas antes tínheis deixado. Daí vossos olhares se recolhiam aos arvoredos que vos rodeavam, ao precipício cheio das flores azuladas e vermelhas das trepadeiras, às torrentes que mugiam no fundo do abismo, e defronte víeis aquela cachoeira imensa que espedaça suas águas amareladas, numa chuva de escuma, nos rochedos negros do seu leito. E olháveis tudo isso com um ar perfeitamente romântico. Sois poeta?
MACÁRIO
Enganai-vos.
Minha mula estava cansada. Sentei-me ali para descansá-la. Esperei que o fresco
da neblina a reforçasse. Nesse tempo divertia-me em atirar pedras no
despenhadeiro e contar os saltos que davam.
O DESCONHECIDO
É um
divertimento agradável.
MACÁRIO
Nem mais
nem menos que cuspir num poço, matar moscas, ou olhar para a fumaça de um
cachimbo A minha mala (Chega à janela). Ó mulher da casa! olá! o de casa!
UMA Vóz (de fora)
Senhor!
MACÁRIO
Desate a
mala de meu burro e traga-m'a aqui .
A VOZ
O burro?
MACÁRIO
A mala, burro!
A VOZ
A mala com
o burro?
MACÁRIO
Amarra a
mala nas tuas costas e amarra o burro na cerca.
A VOZ
O senhor é o moço
que chegou primeiro?
MACÁRIO
Sim. Mas
vai ver o burro.
A VOZ
Um moço
que parece estudante?
MACÁRIO
Sim. Mas
anda com a mala.
A VOZ
Mas como
hei-de ir buscar a mala? Quer que vá a pé?
MACÁRIO
Esse diabo
é doido! Vai a pé, ou monta numa vassoura como tua mãe!
A VOZ
Descanse,
moço. O burro há-de aparecer. Quando madrugar iremos procurar.
OUTRA VOZ
Havia de
ir pelo caminho do Nhô Quito. Eu conheço o burro…
MACÁRI O
E minha
mala?
A VOZ
Não vê? Está
chovendo a potes!...
MACÁRIO (fecha a janela).
Malditos! (Atira
com ama cadeira no chão).
O DESCONHECIDO
Que
tendes, companheiro?
MACÁRIO
Não
vedes? O burro fugiu. . .
O DESCONHECIDO
Não será
quebrando cadeiras que o chamareis..
MACÁRIO
Porém a
raiva...
O DESCONHECIDO
Bebei mais
um copo de Madeira. (Bebem). Levais de certo alguma preciosidade na mala?
(Sorri-se).
MACÁRIO
Sim . . .
O DESCONHECIDO
Dinheiro?
MACÁRIO
Não,
mas...
O
DESCONHECIDO
A coleção
completa de vossas cartas de namoro, algum poema em borrão, alguma carta de
recomendação?
MACÁRIO
Nem isso,
nem aquilo. . . Levo. ..
O DESCONHECIDO
A mala não
pareceu-me muito cheia. Senti alguma coisa sacolejar dentro. Alguma garrafa de
vinho?
MACÁRIO
Não! não!
mil vezes não! Não concebeis, uma perda imensa, irreparável... era o meu
cachimbo ..
O DESCONHECIDO
Fumais?
MACÁRIO
Perguntai
de que serve o tinteiro sem tinta, a viola sem cordas, o: copo sem vinho, a
noite sem mulher— não me pergunteis se fumo!
O DESCONHECTDO ( Dá-lhe um cachimbo. )
Eis aí um
cachimbo primoroso. É de pura escuma do mar. O tubo é de pau de cereja. O
bocal é de âmbar.
MACÁRIO
Bofé! Uma
Sultana o fumaria! E fumo?
O DESCONHECIDO
É uma
invenção nova. Dispensa-o. Acendei-o na vela. (Macário acende).
MACÁRIO
E vós?
O DESCONHECIDO
Não vos
importeis comigo. (Tira outro cachimbo e fuma)
MACÁRIO
Sois um
perfeito companheiro de viagem. Vosso nome?
O DESCONHECIDO
Perguntei-vos
o vosso?
MACÁRIO
O caso é
que é preciso que eu pergunte primeiro. Pois eu sou um estudante. Vadio ou
estudioso, talentoso ou estúpido, pouco importa. Duas palavras só: amo o fumo
e odeio o Direito Romano. Amo as mulheres e odeio o romantismo.
O DESCONHECIDO
Tocai!
Sois um digno rapaz. (Apertam a mão).
MACÁRIO
Gosto mais
de uma garrafa de vinho que de um poema, mais de um beijo que do soneto mais
harmonioso. Quanto ao canto dos passarinhas, ao luar sonolento, às noites límpidas,
acho isso sumamente insípido. Os passarinhos sabem só uma cantiga. O luar é
sempre o mesmo. Esse mundo é monótono a fazer morrer de sono.
O DESCONHECIDO
E a
poesia?
MACÁRIO
Enquanto
era a moeda de oiro que corria só pela mão do rico, ia muito bem. Hoje
trocou-se em moeda de cobre; não há mendigo, nem caixeiro de taverna que não
tenha esse vintem azinhavrado. Entendeis-me?
O DESCONHECIDO
Entendo. A
poesia, de popular tornou-se vulgar e comum. Antigamente faziam-na para o povo;
hoje o povo a faz para ninguém .
MACÁRIO ( bebe )
Eu vos
dizia pois Onde tínhamos ficado?
O DESCONHECIDO
Não sei.
Parece-me que falávamos sobre o Papa.
MACÁRIO
Não sei:
creio que o vosso vinho subiu-me à cabeça. Puah! vosso cachimbo tem sarro que
tresanda!
O DESCONHECIDO
Sois
triste, moço... Palavra que eu desejaria ver essa poesia vossa.
MACÁRIO
Por quê?
O DESCONHECIDO
Porque
havia ser alegre como Arlequim assistindo a seu enterro...
MACÁRIO
Poesias a quê?
O DESCONHECIDO
À luz, ao
céu, ao mar. ..
MACÁRIO
mas é uma
coisa soberanamente insípida. . . O enjôo é tudo quanto há mais prosaico.
Sou daqueles de quem fala o corsário de Byron "whose soul would sicken o'er
the heaving wave".
O DESCONHECIDO
E enjoais
a bordo?
MACÁRIO
É a única semelhança que tenho com D.
Juan.
O DESCONHECIDO
Modéstia!
MACÁRIO
Pergunta à taverneira se apertei-lhe o cotovelo,
pisquei-lhe o olho, ou pus-lhe a mão nas tetas
O DESCONHECIDO
Um dragão!
MACÁRIO
Uma
mulher! Todas elas são assim. As que não são assim por fora o são por
dentro. Algumas em falta de cabelos na cabeça os têm no coração. As mulheres
são como as espadas, às vezes a bainha é de oiro e de esmalte e a folha é
ferrugenta.
O DESCONHECIDO
Falas como
um descrido, como um saciado! E contudo ainda tens os beiços de criança!
Quantos seios de mulher beijaste além do seio de tua ama de leite? Quantos lábios
além dos de tua irmã?
MACÁRIO
A vagabunda que
dorme nas ruas, a mulher que se vende corpo e alma, porque sua alma é tão
desbotada como seu corpo, te digam minhas noites. Talvez muita virgem tenha
suspirado por mim! Talvez agora mesmo alguma donzela se ajoelhe na cama e reze
por mim!
O DESCONHECIDO
Na verdade
és belo. Que idade tens?
MACÁRIO
Vinte
anos. Mas meu peito tem batido nesses vinte anos tantas vezes como o de um outro
homem em quarenta.
O DESCONHECIDO
E amaste muito?
MACÁRIO
Sim e não. Sempre e nunca.
O DESCONHECIDO
Fala claro.
MACÁRIO
Mais claro
que o dia. Se chamas o amor a troca de duas temperaturas, o aperto de dois
sexos, a convulsão de dois peitos que arquejam, o beijo de duas bocas que
tremem, de duas vidas que se fundem tenho amado muito e sempre! Se chamas o amor
o sentimento casto e poro que faz cismar o pensativo, que faz chorar o amante na
relva onde passou a beleza, que adivinha o perfume dela na brisa, que pergunta
às aves, à manhã, à noite, às harmonias da música, que melodia é mais
doce que sua voz, e ao seu coração, que formosura há mais divina que a
dela—eu nunca amei. Ainda não achei uma mulher assim. Entre um charuto e uma
chávena de café lembro-me às vezes de alguma forma divina, morena, branca,
loira, de cabelos castanhos ou negros. Tenho-as visto que fazem empalidecer—e
meu peito parece sufocar meus lábios se gelam, minha mão se esfria.. Parece-me
então que se aquela mulher que me faz estremecer assim soltasse sua roupa de
veludo e me deixasse por os lábios sobre seu seio um momento, eu morreria num
desmaio de prazer! Mas depois desta vem outra— mais outra—e o amor se desfaz
numa saudade que se desfaz no esquecimento. Como eu te disse, nunca amei.
O
DESCONHECIDO
Ter vinte
anos e nunca ter amado! E para quando esperas o amor?
MACÁRIO
Não sei. Talvez eu ame quando estiver impotente!
O DESCONHECIDO
E o que exigirias para a mulher de teus amores?
MACÁRIO
Pouca coisa.
Beleza, virgindade, inocência, amor
O DESCONHECIDO (irônico)
Mais nada?
MACÁRIO
Notai que por
beleza indico um corpo bem feito, arredondado, setinoso, uma pele macia e
rosada, um cabelo de seda-froixa e uns pés mimosos
O DESCONHECIDO
Quanto à virgindade?
MACÁRIO
Eu a quereria
virgem na alma como no corpo. Quereria que ela nunca tivesse sentido a menor emoção
por ninguém. Nem por um primo, nem por um irmão Que Deus a tivesse criado
adormecida na alma até ver-me como aquelas princesas encantadas dos
contos—que uma fada adormecera por cem anos. Quereria que um anjo a cobrisse
sempre com seu véu, e a banhasse todas as noites do seu óleo divino para guardá-la
santa! Quereria que ela viesse criança transformar-se em mulher nos meus
beijos.
O DESCONHECIDO
Muito bem,
mancebo! E esperas essa mulher?
MACÁRI O
Quem
sabe!
O DESCONHECIDO
E é no lodo da prostituição que hás-de
encontrá-la?
MACÁRIO
Talvez! É
no lodo do oceano que se encontram as pérolas
O DESCONHECIDO
Em mau
lugar procuras a virgindade! É mais fácil achar uma pérola na casa de um
joalheiro que no meio das areias do fundo do mar.
MACÁRIO
Quem sabe!..
O DESCONHECIDO
Duvidas
pois?
MACÁRIO
Duvido
sempre. Descreio às vezes. Parece-me que este mundo é um logro. O amor, a glória,
a virgindade, tudo é uma ilusão.
O DESCONHECIDO
Tens razão: a
virgindade é uma ilusão! Qual é mais virgem, aquela que é deflorada
dormindo, ou a freira que ardente de lágrimas e desejos se revolve no seu
catre, rompendo com as mãos sua roupa de morte, lendo algum romance impuro?
MACÁRIO
Tens razão: a virgindade da alma pode existir
numa prostituta, e não existir numa virgem de corpo.—Há flores sem perfume,
e perfume sem flores. Mas eu não sou como os outros. Acho que uma taça vazia
pouco vale, mas não beberia o melhor vinho numa xícara de barro.
O DESCONHECIDO
E contudo bebes
o amor nos lábios de argila da mulher corrupta!
MACÁRIO
O amor? Que te disse que era o amor? É uma fome
impura que se sacia. O corpo faminto é como o conde Ugolino na sua
torre—morderia até num cadáver.
O DESCONHECIDO
Tua comparação é exata. A meretriz é um cadáver.
MACÁRIO
Vale-nos ao menos que sobre seu peito não se
morre de frio!
O DESCONHECIDO
Admira-me uma coisa. Tens vinte anos: deverias
ser puro como um anjo e és devasso como um cônego!
MACÁRIO
Não é que eu não voltasse meus sonhos para o céu.
A cisterna também abre seus lábios para Deus, e pede-lhe uma água pura—e o
mais das vezes só tem lodo. Palavra de honra—que às vezes quero fazer-me
frade.
O DESCONHECIDO
Frade! Para quê?
MACÁRIO
É uma loucura. Enche esse copo. (Bebe) Pela
Virgem Maria! Tenho sono. Vou dormir.
O DESCONHECIDO
E eu também Boa-noite.
MACÁRIO
Ainda uma vez, antes de dormir, o teu nome?
O DESCONHECIDO
Insistes nisso?
MACÁRIO
De todo o meu coração. Sou filho de mulher.
O DESCONHECIDO
Aperta minha mão. Quero ver se tremes nesse
aperto ouvindo meu nome.
MACÁRIO
Juro-te que não, ainda que fosses
O DESCONHECIDO
Aperta minha mão. Até sempre: na vida e na
morte!
MACÁRIO
Até sempre, na vida e na morte!
O DESCONHECIDO
E o teu nome?
MACÁRIO
Macário. Se não fosse enjeitado, dir-te-ia o
nome de meu pai e o de minha mãe. Era de certo alguma libertina. Meu pai, pelo
que penso, era padre ou fidalgo.
O DESCONHECIDO
Eu sou o diabo. Boa-noite, Macário.
MACÁRIO
Boa-noite, Satan. (Deita-se. O desconhecido sai).
O diabo! uma boa fortuna! Há dez anos que eu ando para encontrar esse patife!
Desta vez agarrei-o pela cauda! A maior desgraça deste mundo é ser Fausto sem
Mefistófeles Olá, Satan!
SATAN
Macário
MACÁRIO
Quando
partimos?
SATAN
Tens sono?
MACÁRIO
Não
SATAN
Então já.
MACÁRIO
E o meu burro?
SATAN
Irás na
minha garupa.
Num caminho, Satan montado num barro preto; Macário na garupa.
MACÁRIO
Pára um pouco teu burro.
SATAN
Não queres chegar?
MACÁRIO
É que ele tem um trote inglês de desesperar os
intestinos.
SATAN
E contudo este burro descende em linha reta do
burro em que fez a sua entrada em Jerusalém o filho do velho carpinteiro José.
Vês pois que é fidalgo como um cavalo árabe.
MACÁRIO
Tudo isso não prova que ele não trota
danadamente. Falta-nos muito para chegar?
SATAN
Não. Daqui a cinco minutos podemos estar à
vista da cidade. Hás de vê-la desenhando no céu suas torres escuras e seus
casebres tão pretos de noite como de dia, iluminada, mas sombria como uma essa
de enterro.
MACÁRIO
Tenho ânsia de lá chegar. É bonita?
SATAN (boceja )
Ah! é
divertida.
MACÁRIO
Por acaso também há mulheres ali?
SATAN
Mulheres, padres, soldados e estudantes. As
mulheres são mulheres, os padres são soldados, os soldados são padres, e os
estudantes são estudantes: para falar mais claro: as mulheres são lascivas, os
padres dissolutos, os soldados ébrios, os estudantes vadios. Isto salvo
honrosas exceções, por exemplo, de amanhã em diante, tu.
MACÁRIO
Esta cidade deveria ter o teu nome.
SATAN
Tem o de um santo: é quase o mesmo. Não é o hábito
que faz o monge. Demais, essa terra é devassa como uma cidade, insípida como
uma vila e pobre como uma aldeia. Se não estás reduzido a dar-te ao pagode, a
suicidar-te de spleen, ou a alumiar-te a rolo, não entres lá. É a monotonia
do tédio. Até as calcadas!
MACÁRIO
Que têm?
SATAN
São intransitáveis. Parecem encastoadas as tais
pedras. As calçadas do inferno são mil vezes melhores.Mas o pior da história
é que as beatas e os cônegos cada vez que saem, a cada topada, blasfemam tanto
com o rosário na mão que já estou enjoado. Admiras-te? por que abres essa
boca espantada? Antigamente o diabo corria atrás dos homens, hoje são eles que
rezam pelo diabo. Acredita que faço-te um favor muito grande em preferir-te à
moça de um frade que me trocaria pelo seu Menino Jesus, e a um cento de padres
que dariam a alma, que já não tem, por uma candidatura.
MACÁRIO
Mas, como dizias, as mulheres
SATAN
Debaixo do pano luzidio da mantilha, entre a
renda do véu, com suas faces cor-de-rosa, olhos e cabelos pretos (e que olhos e
que longos cabelos!) são bonitas. Demais, são beatas como uma bisavó; e sabem
a arte moderna de entremear uma Ave-Maria com um namoro; e soltando uma conta do
rosário lançar uma olhadela.
MACÁRIO
Oh! a mantilha acetinada! os olhares de Andaluza!
e a tez fresca como uma rosa! os olhos negros, muito negros, entre o véu de
seda dos cílios. Apertá-las ao seio com seus ais, seus suspiros, suas orações
entrecortadas de soluços! Beijar-lhes o seio palpitante e a cruz que se agita
no seu colo! Apertar-lhes a cintura, e sufocar-lhes nos lábios uma oração!
Deve ser delicioso!
SATAN
Tá! tát! tá— Que ladainha! parece que já
estás enamorado, meu Dom Quixote, antes de ver as Dulcinéias!
MACÁRIO
Que boa terra! E o Paraíso de Mafoma!
SATAN
Mas as moças poucas vezes tem bons dentes. A
cidade colocada na montanha, envolta de várzeas relvosas, tem ladeiras íngremes
e ruas péssimas. É raro o minuto em que não se esbarra a gente com um burro
ou com um padre. Um médico que ali viveu e morreu deixou escrito numa obra inédita,
que para sua desgraça o mundo não há-de ler, que a virgindade era uma ilusão.
E contudo, não há em parte alguma mulheres que tenham sido mais vezes virgens
que ali.
MACÁRIO
Tem-se-me contado muito bonitas histórias. Dizem
na minha terra que aí, à noite, as moças procuram os mancebos, que lhes batem
à porta, e na rua os puxam pelo capote Deve ser delicioso! Quanto a mim,
quadra-me essa vida excelentemente, nem mais nem menos que um Sultão escolherei
entre essas belezas vagabundas a mais bela. Aplicarei contudo o ecletismo ao
amor. Hoje uma, amanhã outra: experimentarei todas as taças. A mais doce
embriaguez é a que resulta da mistura dos vinhos.
MACÁRIO
ÉS O diabo em pessoa. Para ti nada há bom. Pelo
que vejo, na criação só há uma perfeição, a tua. Tudo c mais nada vale
para ti. Substância da soberba, ris de tudo o mais embuçado no teu desdém. Há
uma tradição, que quando Deus fez o homem, veio Satan; achou a criatura
adormecida, apalpou-lhe o corpo: achou-o perfeito, e deitou aí as paixões.
SATAN
Essa história é uma mentira. O que Satan pôs
ai foi o orgulho. E o que são vossas virtudes humanas senão a encarnação do
orgulho?
MACÁRIO
Oh! Ali vejo luzes ao longe. Uma montanha oculta
no horizonte. Disséreis um pântano escuro cheio de fogos errantes. Porque páras
o teu animal?
SATAN
Tenho uma casa aqui na entrada da cidade.
Entrando à direita, defronte do cemitério.1 Sturn, meu pajem, lá está
preparando a ceia. Levanta-te sobre meus ombros: não vês naquele palácio uma
luz correr uma por uma as janelas? Sentiram a minha chegada.
MACÁRIO
Que ruínas são estas? É uma igreja esquecida?
A lua se levanta ao longe nas montanhas. Sua luz horizontal banha o vale, e
branqueia os pardieiros escuros do convento. Não mora ali ninguém? Eu tinha
desejo de correr aquela solidão.
SATAN
É uma propensão singular a do homem pelas ruínas.
Devia ser um frade bem sombrio, ébrio de sua crença profunda, o Jesuíta que aí
lançou nas montanhas a semente dessa cidade. Seria o acaso quem lhe pôs no
caminho, à entrada mesmo, um cemitério à esquerda e umas ruínas à direita?
MACÁRIO
Se quisesses, Satan, podíamos descer pelo
despenhadeiro, e ir ter lá embaixo, enquanto Sturn prepara ceia.
Não, Macário. Minha barriga está seca
como a de um eremita: deves também ter fome. Molhar os pés no orvalho não
deve ser bom para quem vem de viagem. Vamos cear. Daqui a pouco o luar estará
claro e poderemos vir.
MACÁRIO
Fiat voluntas tua.
SATAN
Amam!
Ao luar, Junto de uma janela está uma
mesa.
SATAN
Então, não bebes, Macário? Que tens, que estás
pensativo e sombio? Olha, desgraçado, é verdadeiro vinho do Reno que
desdenhas!
MACÁRIO
E tu és mesmo Satan?
SATAN
É nisso que pensavas? És uma criança. De certo
que querias ver-me nu e ébrio como Caliban, envolto no tradicional cheiro de
enxofre! Sangue de Baco! Sou o diabo em pessoa! Nem mais nem menos: porque tenha
luvas de pelica, e ande de calças à inglesa, e tenha os olhos tão azuis como
uma alemã! Queres que te jure pela Virgem Maria?
MACÁRIO ( bebe )
Este vinho é bom. Quando se tem três garrafas
de Johannisberg na cabeça, sente-se a gente capaz de escrever um poema. O poeta
árabe bem o disse—o vinho faz do poeta um príncipe e do príncipe um poeta.
Sabes quem inventou o vinho?
SATAN
É uma bela coisa o vapor de um charuto! E
demais, o que é tudo no mundo senão vapor? A adoração é incenso e o incenso
o que é? O amor é o vapor do coração que embebeda os sentidos. Tu o
sabes—a glória é fumaça.
MACÁRIO
Sim. É belo fumar! O fumo, o vinho e as
mulheres! Sabes há ocasião em que dão-me venetas de viver no Oriente.
SATAN
Sim... o Oriente! mas que achas de tão belo
naqueles homens que fumam sem falar, que amam sem suspirar? É pelo fumo? Fuma
aqui... vê, o luar está belo: as nuvens do céu parecem a fumaça do cachimbo
do Onipotente que resfolga dormindo. Pelas mulheres? Faze-te vigário de
freguesia. . .
MACÁRIO
É uma coisa singular esta vida. Sabes que às
vezes eu quereria ser uma daquelas estrelas para ver de camarote essa Comédia
que se chama o Universo? essa Comédia onde tudo que há mais estúpido é o
homem que se crê um espertalhão? Vês aquele boi que rumina ali deitado
sonolento na relva? Talvez seja um filósofo profundo que se ri de nós. A
filosofia humana é uma vaidade. Eis aí, nós vivemos lado a lado, o homem
dorme noite a noite com uma mulher: bebe, come, ama com ela, conhece todos os
sinais de seu corpo, todos os contornos de suas formas, sabe todos os ais que
ela murmura nas agonias do amor, todos os sonhos de pureza que ela sonha de
noite e todas as palavras obscenas que lhe escapam de dia. . . Pois bem—a esse
homem que deitou-se mancebo com essa mulher ainda virgem, que a viu em todas as
fases, em todos os seus crepúsculos, e acordou um dia com ela ambos velhos e
impotentes, a esse homem, perguntai-lhe o que é essa mulher, ele não saberá
dizê-lo! Ter volvido e revolvido um livro a ponto de manchar-lhe e romper-lhe
as folhas, e não entendê-lo! Eis o que é a filosofia do homem! Há cinco mil
anos que ele se abisma em si, e pergunta-se quem é, donde veio, onde vai, e o
que tem mais juízo é aquele que moribundo crê que ignora!
SATAN
Eis o que é profundamente verdade! Perguntai ao
libertino que venceu o orgulho de cem virgens e que passou outras tantas noites
no leito de cem devassas, perguntai a D. Juan, Hamlet ou ao Faust o que é a
mulher, e . nenhum o saberá dizer. E isso que te digo não é romantismo. Amanhã
numa taverna poderás achar Romeu com a criada da estalagem, verás D. Juan com
Julietas, Hamlet ou Faust sob a casaca de um dandy. É que esses tipos são
velhos e eternos como o sol. E a humanidade que os estuda desde os primeiros
tempos ainda não entende esses míseros, cuja desgraça é não entender e o sábio
que os vê a seu lado deixa esse estudo para pensar nas estrelas; o médico, que
talvez foi moço de coração e amou e creu, e desesperou e descreu, ri-se das
doenças da alma e só vê a nostalgia na ruptura de um vaso, o amor concentrado
quando se materializa numa tísica. Se Antony ainda vive e deu-se à medicina é
capaz de receitar uma dose de jalapa para uma dor íntima; um cautério para uma
dor de coração!
MACÁRIO
Falas como um livro, como dizem as velhas. Só
Deus ou tu sabes se o Ramée ou D. Cesar de Basan, Santa Teresa ou Marion
Delorme, o sábio ou o ignorante, Creso ou Iro, Goethe ou o mendigo ébrio que
canta, entenderam a vida. Quem sabe onde está a verdade? nos sonhos do poeta,
nas visões do monge, nas canções obscenas do marinheiro, na cabeça do doido,
na palidez do cadáver, ou no vinho ardente da orgia? Quem sabe?
MACÁRIO
No que penso? Hás de rir se contar-t'o. É uma
história fatal.
SATAN
Deixa-me acender outro charuto Muito bem. Conta
agora. É algum romance?
MACÁRIO
Não: lembrei-me agora de uma mulher. Uma noite
encontrei na rua uma vagabunda. A noite era escura. Eu ia pelas ruas à toa
Segui-a. Ela levou-me à sua casa. Era um casebre. A cama era um catre: havia um
colchão em cima, mas tão velho, tão batido, que parecia estar desfeito ao
peso dos que aí haviam-se revolvido. Deitei-me com ela. Estive algumas horas.
Essa mulher não era bela: era magra e lívida. Essa alcova era imunda. Eu
estava aí frio: o contato daquele corpo amolecido não me excitava sensações:
e contudo eu mentia à minha alma, dando-lhe beijos. Eu saí dali. No outro dia
de manhã voltei. A casa estava fechada. Bati. Não me responderam.
Entrei:—uma mulher saiu-me ao encontro. Perguntei-lhe pela outra. Silencio! me
disse a velha.—Está deitada ali no chão Morreu esta noite E com um ar cínico
—"Quereis vê-la? está nua vão amortalhá-la".
SATAN
Na verdade, é singular. E o nome dessa mulher?
MACÁRIO
Esqueci-o. Talvez amanhã eu t'o diga: amanhã ou
depois, que importa um nome? E contudo essa misérrima com quem deitei-me uma
noite, que pretendia ter o segredo da virgindade eterna de Marion Delorme, que
me falava de amanhã com tanta certeza, que mercadejava sua noite de amanhã
como vendera segunda vez a de seu hoje, e que de certo morreu pensando nos meios
de excitar mais deleite, na receita da virgindade eterna que ela sabia como a
antiga Marion Delorme, essa mulher que esqueci como se esquecem os que são
mortos, me fez ainda agora estremecer.
SATAN
E quem sabe se aquela mulher, a cujo lado
estiveste não era a ventura?
MACÁRIO
Não te entendo.
SATAN
Quem sabe se naquele pântano não encontrarias
talvez a chave de ouro dos prazeres que deliram?
MACÁRIO
Quem sabe! Talvez.
SATAN
É tarde. Agora é uma caveira a face que
beijaste —uma caveira sem lábios, sem olhos e sem cabelos. O seio se desfez.
A vulva onde a sede imunda do soldado se enfurnava—como um cão se sacia de
lodo—foi consumida na terra. Tudo isso é comum. É uma idéia velha não? E
quem sabe se sobre aquele cadáver não correram lágrimas de alguma esperança
que se desvaneceu? se com ela não se enterrou teu futuro de amor? Não gozaste
aquela mulher?
MACÁRIO
Não.
SATAN
Se ali ficasse mais alguma hora, talvez ela te
morresse nos braços. Aquela agonia, o beijo daquela moribunda talvez
regenerasse. Da morte nasce muitas vezes a vida. Dizem que se a rabeca de
Paganini dava sons tão humanos, tão melodiosos, é que ele fizera passar a
alma de sua mãe, de sua velha mãe moribunda, pelas cordas e pela caverna de
seu instrumento. Sentes frio, que te embuges assim no teu capote?
MACÁRIO
Satan, fecha aquela janela. O ar da noite me faz
mal. O luar me gela. Demais, senti nas folhagens ao longe um estremecer. Que som
abafado é aquele ao longe? Dir-se-ia o arranco de um velho que estrebucha.
SATAN
É a meia-noite. Não ouves?
MACÁRIO
Sim. É a meia-noite. A hora amaldiçoada, a hora
que faz medo às bestas, e que acorda o ceticismo. Dizem que a essa hora vagam
espíritos, que os cadáveres abrem os lábios inchados e murmuram mistérios É
verdade, Satan?
SATAN
Se não tivesse tanto frio, eu te levaria comigo
ao campo. Eu te adormeceria no cemitério e havias ter sonhos como ninguém os
tem, e como os que os têm não querem crê-los.
MACÁRIO
Bem, muito bem. Irei contigo.
SATAN
Vamos
pois. Dá-me tua mão. Está fria como a de um defunto! Dentro em alguns
momentos estaremo. longe daqui. Dormirás esta noite um sono bem profundo.
MACÁRIO
O da morte?
SATAN
Fundo como o do morto: mas acordarás, e amanhã
lembrarás sonhos como um ébrio nunca vislumbrou.
MACÁRIO
Vamos—estou pronto.
SATAN
Deixa-me beber um trago de curaçau.—Vamos. A
lua parou no céu. Tudo dorme. É a hora dos mistérios. Deus dorme no seio da
criação como Loth no regaço incestuoso de sua filha. Só vela Satan. Satan,
com a mão sobre o estômago de Macário, que está deitado sobre um túmulo.
Acorda!
MACÁRIO
(estremece)
Ah! pensei nunca mais acordar! Que sono profundo!
SATAN
Divertiste muito à noite, não?
MACÁRIO
É horrível! horrível!
SATAN
Fala.
MACÁRIO
Meu peito se exauriu. Meus lábios não podem
transbordar estes mistérios.
SATAN
Era pois muito medonho o que vias? Levanta-te daí.
MACÁRIO
Não posso: quebrou-se meu corpo entre os braços
do pesadelo. Não posso.
SATAN
Liba esse licor: uma gota bastaria para reanimar
um cadáver.
MACÁRIO (toca-o nos lábios)
Que fogo! meu peito arde. Ah! ah! que dor!
SATAN
Não sabes que para o metal bruto se derreter e
cristalizar é míster um fogo ardente, ou a centelha magnética ?
MACÁRIO
Que sonho! Era um ar abafado—sem nuvens e sem
estrelas!—Que escuridão! Ouvia-se apenas de espaço a espaço um baque como o
de um peso que cai no mar e afunda-se . Às vezes vinha uma luz, como uma
estrela ardente, cair e apagar-se naquela lagoa negra Depois eu vi uma forma de
mulher pensativa. Era nua e seu corpo e perfeito como o de um anjo—mas era lívido
como o mármore. Seus olhos eram vidrados, os lábios brancos, e as unhas
roxeadas. Seu cabelo era loiro, mas tinha uns reflexos de branco. —Que dor
desconhecida a gelara assim e lhe embranquecera os cabelos? não sei. Ela se
erguia às vezes, cambaleando, estremecendo suas pernas indecisas, como uma
criança que tirita;—e se perdia nas trevas. Eu a segui. Caminhamos longo
tempo num chão pantanoso
SATAN
E tu a viste parar numa torrente que transbordava
de cadáveres—tomá-los um por um nos braços sem sangue, apertar se gelada
naqueles seios de gelo—, revolver-se, tremer, arquejar—e erguer-se depois
sempre com um sorriso amargo.
MACÁRIO
Quem era essa mulher?
SATAN
Era um anjo. Há cinco mil anos que ela tem o
corpo da mulher e o anátema de uma virgindade eterna. Tem todas as sedes, todos
os apetites lascivos, mas não pode amar. Todos aqueles em que ela toca se
gelam. Repousou o seu seio, roçou suas faces em muitas virgens e prostitutas,
em muitos velhos e crianças—bateu a todas as portas da criação, estendeu-se
em todos os leitos e com ela o silêncio... Essa estátua ambulante é quem
murcha as flores, quem desfolha o outono, quem amortalha as esperanças.
MACÁRIO
Quem é?
SATAN
E depois o quc viste?
MACÁRIO
Vi muita coisa. . . Eram mil vozes que rebentavam
do abismo, ardentes de blasfêmia! Das montanhas e dos vales da terra, das
noites de amor e das noites de agonia, dos leitos do noivado aos túmulos da
morte erguia-se uma NOZ que dizia:—Cristo, sê maldito! Glória, três vezes
glória ao anjo do mal!—E as estrelas fugiam chorando, derramando suas lágrimas
de fogo. . . E uma figura amarelenta beijava a criação na fronte—e esse
beijo deixava uma nódoa eterna. . .
SATAN
Estás muito pálido.
E contudo sonhaste só meia hora.
MACÁRIO
Eu pensei que era um século. O que um homem
sente em cem anos não equivale a esse momento. Que estrela é aquela que caiu
do céu, que ai é esse que gemeu nas brisas?
SATAN
É um filho que o pai enjeitou. É um anjo que
desliza na terra. Amanhã talvez o encontres. A pérola talvez se enfie num
colar de bagas impuras—talvez o diamante se engaste em cobre; Aposto como
daqui a um momento será uma mulher, daqui a um dia uma Santa Madalena!
MACÁRIO
Descrido?
SATAN
O anjo é a criatura do amor. E o que há mais
aberto ao amor que a filha de Jerusalém? Qual é a sombra onde mais vezes tem
vibrado essa pólvora mágica e incompreensível? Qual é o seio onde tem caído
ardentes mais lágrimas de gozo?
MACÁRIO
Não ouviste um ai? um outro ai ainda mais
dorido?
SATAN
É algum bacurau que passou; algum passarinho que
acordou nas garras de uma coruja.
MACÁRIO
Não: o eco ainda o repete. Ouves? é um ai de
agonia, uma voz humana! Quem geme a essas horas? Quem se torce na convulsão da
morte?
SATAN (dando uma gargalhada)
Ah! ah! ah!
MACÁRIO
Que risada infernal. Não vês que tremo? que o
vento que me trouxe esse ai me arrepiou os cabelos? Não sentes o suor frio
gotejar de minha fronte?
SATAN
(ri-se)
Ah! ah! ah!
MACÁRIO
Satan! Satan! Que
ai era aquele?
SATAN
Queres muito sabê-lo?
MACÁRIO
Sim! pelo inferno ou pelo céu!
SATAN
É o último suspiro de uma mulher que morreu, é
a última oração de uma alma que se apagou no nada.
MACÁRIO
E de quem é esse suspiro? por quem é essa oração?
SATAN
De certo que não é por mim. . . Insensato, não
adivinhas que essa voz é a de tua mãe, que essa oração era por ti?
MACÁRIO
Minha mãe! minha mãe!
SATAN
Pelas tripas de Alexandre Bórgia! Choras como
uma criança!
MACÁRIO
Minha mãe! minha mãe!
SATAN
Então ficas aí?
MACÁRIO
Vai-te, vai-te; Satan! Em nome de Deus! em nome
de minha mãe! eu te digo:—Vai-te!
SATAN (desaparecendo)
É por pouco tempo. Amanhã me chamarás. Quando
me quiseres é fácil chamar-me. Deita-te no chão com as costas para o céu; põe
a Mão esquerda no coração; com a direita bate cinco vezes no chão, e
murmura— Satan!
A estalagem do
caminho (do princípio).As janelas fechadas. Batem à porta.
MACÁRIO ( acordando)
Que sonho! Foi um sonho... Satan! Qual Satan! Aqui
estão as minhas botas, ali está o meu ponche... A ceia está intacta na mesa!
Minha garrafa vazia do mesmo modo! Contudo eu sou capaz de jurar que não
sonhei! Olá mulher da venda!
A MULHER (batendo de fora)
Senhor moço! Abra! abra!
MACÁRIO
Que algazarra do
diabo é essa?
(Abre a porta. Entra a mulher).
A MULHER
Ah! Senhor! estou cansada de bater à sua porta!
Pois o senhor dorme a sono solto até três horas da tarde!
MACÁRIO
Como?
A MULHER
Nem ceou—aposto: nem ceou. A vela ardeu toda.
Ora vejam como podia pegar fogo na casa! Pegou no sono, comendo de certo!
MACÁRIO
Esta é melhor! Pois aqui não esteve ninguém
ontem comigo?
A MULHER
Pela fé de Cristo! ninguém.
MACÁRIO
Pois eu não saí daqui de noite, alta noite, na
garupa de um homem de ponche vermelho e preto, porque meu burro tinha fugido
para o sítio do Nhô Quito?
A MULHER (espantada, benzendo-se)
N ao, senhor! não ouvi nada. . . O burro está
amarrado na baia. Comeu uma quarta de milho. . .
MACÁRIO (chega à janela)
Como! Não
choveu a cântaros esta noite? É singular lar! Eu era capaz de jurar que
cheguei até a cidade, antes de meia-noite!
A MULHER
(benzendo-se)
Se não foi por
artes do diabo, o senhor estava sonhando.
MACÁRIO
O diabo! (Dá
uma gargalhada à força.) Ora, sou um pateta! Qual diabo, nem meio diabo! Dormi
comendo, e sonhei nestas asneiras!. . Mas que vejo! (Olhando para o chão) Não
vês?
A MULHER
O que é? Ai! ai! uns sinais de queimado aí pelo
chão Cruz! Cruz! minha Nossa Senhora de S. Bernardo!.. É um trilho de um pé.
. .
MACÁRIO
Tal e qual um pé!. . .
A MULHER
Um pé de cabra ...um trilho queimado...Foi o pé
do diabo! o diabo andou por aqui!
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Álvares
de Azevedo